Por indicação de um amigo, assisti a um filme espetacular. Não é nenhum grande sucesso de hollywood e talvez eu nunca viesse a ve-lo se não fosse a recomendação recebida.O nome desta maravilhosa produção é Ligações da Vida.
Não é um lançamento e nem sei se existe nas locadoras, pois o que vi, foi gravado em um dos canais do Telecine.
Não é um lançamento e nem sei se existe nas locadoras, pois o que vi, foi gravado em um dos canais do Telecine.
Fiquei bastante tempo pensando sobre esta historia, que não é simplesmente mais uma falando sobre professores legais, trabalhando com crianças pobres.
Ela ultrapassa os clichês e apresenta tanta riqueza e conteúdo, que se houvesse um manual para ensinar a ser um professor inesquecível, encontraria ali sua versão cinematográfica.
Tudo o que eu sei, experimentei e já vi dar certo está lá. E não é tão difícil. Conheço colegas que são tão comprometidos como o professor do filme. Mas não são maioria, infelizmente. Não tem nada de utopia ou exagero cinematográfico. É bem real e possível.
O primeiro ponto que me chamou atenção é a evidência de que não é preciso grande parafernália tecnológica (ela é desejável, mas não indispensável) para que aconteça a aprendizagem. O professor é o melhor recurso pedagógico que existe, pena que muitos não se lembram disso.
Quais foram as técnicas usadas pelo professor? Na verdade ele usou com muita sensibilidade as coisas que tinha "aprendido" na educação militar e radical dada pelo pai.
Só que usou a experiência para saber o que não fazer. Com isto se tornou uma pessoa capaz de perceber a individualidade de cada aluno, com o olhar e a empatia treinadinhos para perceber até o aluno com uma deficiência, que nem os próprios colegas sabiam.
Ao mesmo tempo que ajudou o aluno surdo na aprendizagem, cortou pela raiz o preconceito e o bullying que existia contra ele, solicitando a colaboração de todos para ajudar o colega, estimulando a solidariedade (temas transversais, valores, presentes nos PCNs).
A partir dai, ele deu outro passo fundamental, procurou aproximar as famílias da escola, conquistando a confiança e o respeito de todos. Já está provado que a participação da família na vida escolar das crianças melhora o rendimento
Na aprendizagem formal ele fez o que a muitos anos já se ensina nos cursos de formação de professores: partir do interesse dos alunos, do contexto onde vivem para despertar a atenção e integrar os conteúdos escolares à realidade das crianças, senão não faz sentido para eles.
E ele integrou conteúdos de uma forma maravilhosa, usando uma coisa que muita gente pensa que é moderno: a interdisciplinaridade. É esta aprendizagem que fica. O resto vai para memória de trabalho e é detonada logo que não fizer mais falta.
São tantas coisas que o filme mostra que é até difícil lembrar. O professor resgatou a autoestima, mostrou o mundo e as possibilidades de crescimento que eles tinham. Mostrou direitos, trabalhou a cidadania e valorizou a criatividade.
Confiou e recebeu de volta a confiança total de toda comunidade, mexendo até com os conceitos da diretora durona (mas isto é outra história que daria assunto para um seminário).
Eu acho, que este professor poderia ser considerado um legítimo seguidor de Rogers, com sua teoria da educação centrada no aluno.
Como última lembrança, mas não menos importante, quando o professor teve que ir embora, fica claro outra grande qualidade de um bom educador: ele pode ir, pois seus ensinamentos transformaram a visão de mundo daquela turma e agora eles tem condições de seguirem sozinhos.
Tá, desculpem, contei o final...Mas, não se preocupem isto não é nenhum motivo para deixar de ver o filme. Vale a pena e o fim é só o sinal para se começar uma bela reflexão.
Marisa Assis
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